Carquejeiras no Porto

(…) “No início e até meados do século XX as carquejeiras tiveram uma marca tão fundamental quanto penosa na sociedade portuguesa. Transportavam sofregamente a carqueja que aparava os fornos que coziam o pão da cidade e que aquecia as casas burguesas. Preservar a memória destas verdadeiras “heroínas”, protagonistas de um trabalho desumano, com respeito e admiração é o grande objectivo deste projecto. A Viva foi conhecê-lo melhor junto da sua grande dinamizadora, Maria Arminda Santos, e o resultado é surpreendente.

“Só calcorreando a cidade é que nos apercebemos dos seus mistérios, glórias e fantasmas assim como as controversas atribulações sociais”, começa por explicar o site da Associação que presta homenagem às carquejeiras do Porto.
Este projeto “tenho em mente desde há muitos anos. Mas com a minha profissão não foi possível colocá-lo em campo. Agora que estou reformada, chegou a altura. O primeiro passo deste projeto foi dado há pouco mais de dois anos com a sua apresentação na junta de freguesia do Bonfim com o apoio da junta, de Manuel Pizarro e do professor Hélder Pacheco. Apresentamos a maquete da carquejeira”, estátua que pretendem erguer, avança Maria Arminda Santos, orgulhosa, e que é a grande mentora deste projeto.

Ó carquejeira
Que triste sorte a tua
Ias de rua em rua
Pisando Tristes trilhos

Manuel Pinho

A Calçada das Carquejeiras (Actualidade)

As carquejeiras carregam penosamente consigo um pedaço muito importante da história do Porto. A carquejeira foi figura errante e sofrida. Transportava a carqueja que vinha em barcos Douro abaixo, apara os fornos que coziam o pão da cidade, aqueciam as casas burguesas, e contribuiu para o desenvolvimento da indústria de biscoitos e panificação de Valongo.
No entanto, há muito sofrimento “escondido” nesta história. “Foi realmente um drama silencioso, em que as mulheres sofriam silenciosamente”, começa por explicar Maria Arminda Santos. “Elas vinham desde junto do rio, subiam a calçada e infiltravam-se ainda pela cidade. Iam para as Antas, Carvalhido, mal alimentadas. À noite os maridos davam-lhes maus-tratos, para além de estas mulheres terem a responsabilidade e a preocupação dos filhos. Eram muitas vezes o pão que se punha na mesa”, adianta.
“Era também uma fase de grande alcoolismo nos homens. Era também uma época em que não havia creche nem apoios sociais. As próprias crianças eram vítimas da situação das mães. Porque o pai raramente estava presente. Neste estrato social as mulheres eram de facto as heroínas”, completa Maximina Ribeiro, também membro deste projeto.
Maria Arminda Santos alerta, contudo, por uma oposição entre estratos sociais, pois “havia uma outra fação na cidade. Havia a alta burguesia em que as senhoras viviam de rendas, de leques. Havia os teatros. Um contexto social muito in”, remata. (…)

A Calçada inicia-se actualmente por baixo da Ponte Infante D. Henrique (2003)

Texto: Irene Mónica Leite

fonte: Viva Porto